20 de ago. de 2007

Um Artigo Que Não Tinha Sido Publicado (21/5/2004)

Por Giulio Sanmartini

FALTOU DIZER

Nem sei se houve algum colunista formador de opinião no Brasil, que tenha deixado de escrever sobre o incidente Lula - Larry Rohter - The New York Times e o artigo “Hábito de beber de Lula se torna preocupação nacional” . No exterior foi notícia para a maioria dos jornais, mas li somente os italianos, especialmente Corriere della Sera, o mais importante do país, que deu destaque ao fato, lamentando a atitude do governo brasileiro em expulsar o jornalista.
Governo de um Lula, que desde sua eleição fora transformado no benjamim da imprensa e da esquerda européia, mas que entrou em decadência, talvez por ter decepcionado com os anúncios de espetáculos nunca realizados. Foi oportunamente substituído pelo jovem primeiro ministro espanhol José Luis Zapateros, já que este de fato apresentou um espetáculo logo de início, retirando suas as tropas do Iraque.
Muitas coisas sobre o assunto foram repetitivas, falou-se à exaustão sobre a má qualidade da matéria do americano, da bebida de Churchil, de Jânio Quadros e até foram buscar os porres de Ulisses Simpson Grant (1822-85), comandante em chefe dos exércitos do Norte durante a Guerra de Secessão estadunidense e depois presidente, sucedendo Abraham Lincoln. Vale dizer que estes três foram escritores e, exceto Jânio Quadros, também estadistas, o que não faz exatamente o perfil de Luiz Inácio Lula da Silva.
O fato do presidente beber não constitui novidade e nunca foi preocupação. A grande preocupação é seu despreparo para gerir os negócio de estado, para administrar as crises e sua facilidade em cria-las. O grupo palaciano especializou-se em elogiar e aplaudir tudo que provém do presidente. Lula tivesse mais um pouco de cultura, ou assessores menos submissos, saberia que um dos sete sábios da Grécia ao ser perguntado qual era o mais feroz dos animais disse: “Dos selvagens os tiranos e dos domésticos os bajuladores”.
Portanto estes últimos, que o cercam em todos os momentos, são os piores conselheiros e é por orientação destes, que o presidente diz e faz suas trapalhadas.
Dessa corte fazem parte importante os marqueteiros, que se acham os mágicos, os criadores de “Lulinha paz e amor”, avocaram-se os méritos de ter levado à presidência da República um ex retirante nordestino, ex operário, ex líder sindical. Hoje determinam sobre tudo que o presidente deve fazer para manter sua popularidade, sentem-se como a mão que dá vida a um fantoche. Se dizem profissionais da comunicação, mas na realidade são ilusionistas que vendem algo diferente daquilo que entregam.
Foram eles que orientaram Lula a ser um apologista da falta de instrução, a continuar cometendo erros de português em sua fala para identificar-se com o povão (por sorte não regrediram ao “menas gente” ou ao “ni mim”), a pensar-se um sábio por usar metáforas de almanaque de farmácia, a sentir-se poderoso, recusando-se a vestir casaca numa recepção com o rei da Espanha, ser grosseiro em suas observações sobre a Mamíbia e a Índia, ou a dizer que “acordara invocado” e resolvera ligar para o presidente dos Estados Unidos da América. Ficamos sem saber se ele ligou, se o presidente daquele país o atendeu, se o fez o que falaram e como falaram (me parece que ambos são monoglotas) e se Bush, por seu lado, também estava invocado?
Luis Inácio Lula da Silva, filho de mãe analfabeta (desde o nascimento), cursou somente o primário, não teve recursos de ir adiante, mas quando os teve não quis fazê-lo, achou-se “doutor” diplomado com louvor na “escola da vida”. Entorpecido pelo poder e vivendo a onipotência dos que ignoram, começou a lançar frases lamentáveis: “preguiça desgramada” de ler, “não é livro que ensina a governar”. Engana-se o presidente, ensina sim e muito, vamos aos fatos. Pelo que entendi ao ler a tradução da tal reportagem, o que o “invocou”, o fez dar murros na mesa e dizer palavrões foi essa parte: “A imprensa brasileira já descreveu repetidas vezes o pai do presidente, Aristides, a quem ele mal conheceu e que morreu em 1978, como sendo um alcoólatra que abusava de seus filhos”. Mais especificamente foi o “abusava de seus filhos”. Alguns jornais, depois de Rohter ter dito que seu artigo fora mal traduzido, mudaram o “abusava” para “maltratava”. Fato é que o jornalista usou no original o verbo “to abuse” , que em português é abusar, que vem do latim “abutor”, verbo que ficou eternizado na famosa frase de Cícero contra Catilina “quosque tandem abutere, Catilina patientia nostra” (até quando Catilina, abusarás de nossa paciência). Isso nos faz concluir que o presidente desconhece o sentido lato da palavra abusar. Começa significando fazer mau uso e termina por enfastiar-se, passando por menosprezo, humilhação e ultraje ao pudor.
Por não dar valor a livros, ao invés de consultar um dicionário para saber o amplo significado da palavra e por preguiça “desgramada” não saber semântica, conseguiu com uma interpretação restrita, causar uma crise que desgastou internacionalmente o Brasil.

Nenhum comentário: