5 de set. de 2007

E se estatizarem os preservativos?

Sapatero a tus sapatos! (Provérbio espanhol: Sapateiro cuida do que entendes!)

Por Ralph J. Hofmann

Anos atrás, nas reuniões de executivos de comércio exterior costumávamos comentar as coisas que haviam dado certo até que o sucesso atraíra a atenção do governo.
Havia o caso da rede de lojas de franquia de móveis da Lafer nos Estados Unidos. A Brazil Contempo. O design e a característica de móveis de madeira e couro, assim como técnicas de mercadologia haviam feito dessas lojas um sucesso. Uma empresa de comércio exterior do Banco do Brasil, ou seja, do governo, a COBEC TRADING, insuflada por empresários moveleiros com ligações a figuras do governo achou que poderia operar nessa área. Criou a CANELA, uma loja em endereço impecável, portanto caríssimo, para ser o modelo para a conquista de mercado para empresas brasileiras do setor. Não havia suficientes tipos de móveis para o mercado, portanto tiveram, de vender junto móveis de outras procedências. Os móveis não foram produzidos de forma tecnicamente correta para tolerar calefação e ar condicionado, as linhas trazidas do Brasil eram o que os fabricantes do Brasil queriam vender, não o que o mercado pedia. Foi um tiro n’água muito caro.
Depois houve o caso da vaca que voou. A Cotia Trading criou um tremendo mercado para carne brasileira na Nigéria. Criou seu sistema de distribuição e estava vendendo bem. Uma trading da Petrobrás decidiu que podia fazer o mesmo. Não entendia de gado, nem de abate, nem de transporte frigorificado. Criou uma estrutura a toque de caixa, gastando rios de dinheiro e falhou, tendo causado danos ao negócio da Cotia, que já era um sucesso.
Pessoalmente tive a vivência de estar trabalhando numa trading da área têxtil, vendendo toalhas na Isla Margarita, ao largo da Venezuela. Subitamente nossas toalhas ficaram encalhadas. Os clientes estavam furiosos conosco. As mesmas toalhas estavam aparecendo em banquinhas no mercado, praticamente camelôs, donde ninguém queria comprá-las mais nas lojas de boa reputação. De fato eram toalhas de um fabricante que era acionista da trading. Descobrimos que vendera um lote a uma trading do governo. Essa levara as toalhas para a Venezuela e não conseguindo entrar no mercado já abastecido queimara a mercadoria vendendo-a aos fornecedores de camelôs. Destruiu no mercado essa linha de toalhas.
Finalmente há o caso das xícaras de cafezinho vendidas por uma firma de prataria a algumas das melhores lojas dos Estados Unidos. De repente as mesmas xícaras apareceram num concorrente que baixou os preços para trazer clientes à loja. Tinham sido, surpresa...vendidas por uma das tradings do governo. O fabricante ainda novo no mercado de exportação não limitara as regiões onde podiam ser vendidas. A trading do governo colocou-as num mercado onde já eram conhecidas. Os clientes nunca mais compraram essa linha.
Deve ser digno de nota de que nunca houve uma autoridade nacional da soja, ou autoridade nacional do suco de laranja. Houve sim, um Instituto do Café e um Instituto do álcool. A soja e a laranja, grandes heróis das exportações brasileiras ao longo dos anos sempre operaram dentro das condições do mercado internacional e o país não tem por que se arrepender por isto. O café já nos gerou belos vexames, quando operado por quadros do governo que não entendiam nada. O álcool e o açúcar originalmente foram escravizados pelo Instituto do Álcool e do Açúcar que ha cinqüenta anos os preservava como cultura do Nordeste dos coronéis. Liberados das amarras tornaram-se grandes indústrias em outras regiões. No Nordeste continuaram sendo feudos de coronéis permanentemente caudatários de benesses do governo em virtude do pró-alcool. No Sul e Sudeste atraíram empreendedores modernos que criaram impérios.
Subitamente tanto o álcool quanto o soja chamaram a atenção de quadros governamentais. A hidra da Petrobrás, que nunca deveria ter tido autoridade sobre o álcool agora teme desabastecimento ou custo, pois tanto o soja para biodiesel, quanto o álcool carburante devem aumentar de preço em virtude dos mercados mundiais. Trata-se de uma ameaça. Imaginem que se uma estatal puder ditar regras ao soja e ao álcool também estará mexendo com outros dois commodities, que são o soja em grão e o açúcar. E é muito questionável se a receita do álcool ou do biodiesel pode cobrir a rentabilidade do grão de soja ou do açúcar em anos de preços bons.
E francamente, é absolutamente uma quimera achar que quadros do governo metendo o bedelho num mercado que opera ha tanto tempo sem interferência tenham algo a contribuir.
É a ânsia de meter-se em todos os aspectos da vida nacional Nenhum setor jamais se beneficiou com as burocracias do governo. Ou o governo deu demais (dívidas de usineiros), ou tirou demais (custo do aço nas usinas da Siderbrás, custo do gusa no mercado interno, custo dos fretes marítimos quando o {falido} Lloyd Brasileiro fornecia a matriz de custo).
Esperamos que o Brasil não venha criar o Instituto Nacional do Preservativo. Imaginem os processos de paternidade e o crescimento dos casos de AIDS.

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