29 de out. de 2007

A ética latina

Por Laurence Bittencourt Leite

Surpreendo-me (ainda sou dado a esses surtos) quando vez ou outra leio nossos intelectuais falarem ou escreverem sobre ética. É estranho num país como o nosso ler esquerdista pousar de ético. Mas ocorre e é o comum. Elogiar Che Guevara, por exemplo, sem nenhum senso crítico é o comum. A surpresa claro, fica por minha conta, aviso, porque no sentido social é o esperado, disso que se chama de América Latina.
A questão é, como esperar ética de um país como o nosso, por exemplo, onde quem faz a lei não a respeita? É o mesmo que esperar autoridade de quem não tem. E mesmo aqueles (políticos), percebam, que falam de ética no nível federal, no nível estadual a esquecem. A pergunta é: que diabo de ética é essa? Há ética nisso? É a nossa velha e eterna incoerência, defendida por alguns como “sobrevivência” dos políticos. Como se isso fosse aceitável, normal, pelo menos é o que dão a entender. Ora, aqui em Natal/RN, pessoas sobejamente larápios, ladrões do dinheiro público, que entram na administração pública e com pouco tempo já acumulam fortunas, que permitem desvios de dinheiros e bandalheiras com os recursos públicos (através de diárias pagas a quem não viaja, de nepotismo, de encher a máquina estatal, para dizer o mínimo) são chamados a dar entrevistas nos nossos “meios de comunicação”. É vergonhoso. Mas que os meios de comunicação ainda estejam nas mãos de políticos é mais uma das nossas excrescências. Mas, como dizem, é a nossa realidade. O que fazer?
Outro dia conversando com um amigo, chegamos à conclusão que a eleição de Lula é uma conseqüência direta (inevitável, diria) dessa bandalheira nossa em relação à falta de ética na política desse país. Os partidos hoje, tidos como de oposição, são os responsáveis diretos pela eleição de Lula. Claro, você pode não concordar e dizer que faz parte do “jogo democrático”. A pergunta é: que jogo democrático? Democracia quando o voto é obrigatório? Fiquemos nessa, por enquanto. Mas tem mais, por outro lado. Tanto o PSDB quanto o ex-PFL (me nego a chamar de Democratas) não fizeram nenhuma das reformas esperadas (que deveriam ter feito) como por exemplo as reformas política e econômica. Agora podemos pagar um alto preço e termos um “novo” plebiscito sobre um “terceiro mandato”. Pode isso? Mas no Brasil cabe tudo. Tudo negociata. Agora, olhe o tempo que se pode perder com mais essa coisa asinina. Isso é fantasia? Não meu caro, a fantasia faz parte da cabeça dos esquerdistas, que ainda acreditam em esquerdismo, marxismo e que o PT é um partido ético e que respeita a liberdade e gosta de democracia. Esse é o nosso país e a nossa ética.
Não é à toa, que um filme como “Tropa de Elite” ganhou tantos epítetos e acusações de reacionário, o que prova nosso acumpliciamento com a falta de ética e prova nossa total e eterna vocação para “Madres Terezas de Calcutá”. Mas vocês já sabem, oportunismo e mau caratismo, travestido de “fraternidade e amor aos irmãos”. Bom mocismo da boca para fora, bem entendido. E tome ética.
Claro, aqui em meu estado (e diria no Brasil como um todo) ainda se acredita em fazer cultura com o financiamento estatal, com dinheiro público. Houve um caso local intitulado como de “Folioduto”, onde recursos que deveria ser aplicados na “cultura” foi desviado e roubado. Eta ética. O caso não deu em nada, e depois de relativa repercussão, a ninguém interessa mais falar no assunto, politicamente, estou falando. Nem ao Ministério (dito) “Público”. Ninguém foi preso, e o dinheiro público sumiu. Mas os responsáveis continuam sendo chamados a “dar entrevista” nos meios de comunicação de massa e ninguém questiona nada. Eles invadem as casas das famílias locais. Aqui o cinismo capeia farto e solto.
O incrível é que esses mesmos que roubam ou deixam roubar o dinheiro público, que poluem o Rio Potengi diariamente aqui no meu estado, sem que nada aconteça (a gentileza e bons modos da promotora pública Gilka da Mata em relação ao governo, nem de longe se parece com a fúria de um cão buldogue quando da defesa de um “Novo” Plano Diretor local onde ela queria impedir as construções de novos edifícios porque isso ia aumentar a poluição do Rio), são os mesmos que cobram responsabilidade social da iniciativa privada, e acionam e jogam o Procon nas costas das empresas privadas. Jesus. Isso é vergonhoso. Quanta picaretagem. Quanta. Mas essa é a nossa ética, do país e da América Latina. A mesma que agora deve eleger a “mulher” do presidente argentino Nestor Kirchner, o mesmo que conta com o apoio de Lula, de Chaves, e de Evo Morales, os grandes e verdadeiros democratas do continente latino americano e que defendem a liberdade de expressão.

Um comentário:

ma gu disse...

Alô, Giulio.

Não parece mais 'ética latrina' ?