Por Juliano Schiavo
Seis meses confinada em um quarto escuro, janelas fechadas, lençóis sujos e com mau cheiro. Meio ano sem a possibilidade de sair, aproveitar os momentos da vida, desfrutar dos seus 83 anos. Valinhos, cidade do interior paulista, foi palco de um teatro do horror: Adelaide Martins, aposentada, foi a atriz principal que ganhou notoriedade – sem o glamour dos astros de cinema – mas, no alto de suas oito décadas de experiência, atuou na peça que pode receber o nome “Descaso”.
Adelaide foi mantida em cárcere privado pelo próprio neto, de 35 anos. Ele ficava, segundo a polícia, com cerca de R$ 7.000 mensais de três aposentadorias recebidas pela idosa. Foi libertada dia 06 de setembro, um dia antes de comemorarmos a “Independência do Brasil”. Liberdade essa que não significa necessariamente reverência a vida. Ela sai de uma prisão domiciliar para entrar numa prisão social, cujas grades são edificadas pela ausência de respeito ao próximo.
O “Descaso” é uma peça tão recorrente na sociedade, é algo cíclico, estampado nas manchetes dos jornais. Repete-se diariamente com pequenas alterações e personagens. Enche a todos de revolta, mas essa é passageira, tal qual uma enxaqueca.
O índio pataxó, que dormia na calçada, foi queimado vivo por cinco adolescentes da classe média. Foi um ator, que sentiu na carne o que é participar dessa peça teatral. A doméstica espancada no Rio de Janeiro, confundida com uma prostituta – o que não é justificava para tal atrocidade – também participou dessa peça. Hematomas, tonturas, dores de cabeça foram o presente pela sua atuação. João Hélio, 6 anos, também recebeu os holofotes. Foi arrastado e dilacerado por 14 ruas, de 4 bairros no Rio.
Esses são alguns dos atores do “Descaso” que, sem pedir a ninguém, atuaram nesse teatro onde as vidas humanas são fantoches a bel prazer da violência.
O pior de tudo é que essa peça não é escrita a uma única mão e também não tem um único diretor. Ela é escrita por todos, em menor ou maior grau de participação, mas todos têm sua parcela de culpa. A omissão, a hipocrisia, o desdém pelo próximo, enfim, uma série de atitudes, que somadas, abrem as cortinas e nos dão esse show sanguinolento chamado “Descaso”. Infelizmente os diretores não se tocaram da importância que tem diante dos fatos. É uma vergonha.
jssjuliano@yahoo.com.br
Seis meses confinada em um quarto escuro, janelas fechadas, lençóis sujos e com mau cheiro. Meio ano sem a possibilidade de sair, aproveitar os momentos da vida, desfrutar dos seus 83 anos. Valinhos, cidade do interior paulista, foi palco de um teatro do horror: Adelaide Martins, aposentada, foi a atriz principal que ganhou notoriedade – sem o glamour dos astros de cinema – mas, no alto de suas oito décadas de experiência, atuou na peça que pode receber o nome “Descaso”.
Adelaide foi mantida em cárcere privado pelo próprio neto, de 35 anos. Ele ficava, segundo a polícia, com cerca de R$ 7.000 mensais de três aposentadorias recebidas pela idosa. Foi libertada dia 06 de setembro, um dia antes de comemorarmos a “Independência do Brasil”. Liberdade essa que não significa necessariamente reverência a vida. Ela sai de uma prisão domiciliar para entrar numa prisão social, cujas grades são edificadas pela ausência de respeito ao próximo.O “Descaso” é uma peça tão recorrente na sociedade, é algo cíclico, estampado nas manchetes dos jornais. Repete-se diariamente com pequenas alterações e personagens. Enche a todos de revolta, mas essa é passageira, tal qual uma enxaqueca.
O índio pataxó, que dormia na calçada, foi queimado vivo por cinco adolescentes da classe média. Foi um ator, que sentiu na carne o que é participar dessa peça teatral. A doméstica espancada no Rio de Janeiro, confundida com uma prostituta – o que não é justificava para tal atrocidade – também participou dessa peça. Hematomas, tonturas, dores de cabeça foram o presente pela sua atuação. João Hélio, 6 anos, também recebeu os holofotes. Foi arrastado e dilacerado por 14 ruas, de 4 bairros no Rio.
Esses são alguns dos atores do “Descaso” que, sem pedir a ninguém, atuaram nesse teatro onde as vidas humanas são fantoches a bel prazer da violência.
O pior de tudo é que essa peça não é escrita a uma única mão e também não tem um único diretor. Ela é escrita por todos, em menor ou maior grau de participação, mas todos têm sua parcela de culpa. A omissão, a hipocrisia, o desdém pelo próximo, enfim, uma série de atitudes, que somadas, abrem as cortinas e nos dão esse show sanguinolento chamado “Descaso”. Infelizmente os diretores não se tocaram da importância que tem diante dos fatos. É uma vergonha.
jssjuliano@yahoo.com.br
Um comentário:
Alô, Giulio.
Não se deve esquecer daquele "militante petista" (ou é meliante?) que arrancou a bandeira das mãos daquela mulher que estava protestando contra o presimente na Avenida Paulista, causando-lhe ferimentos. Acho que nem foi identificado.
Vai para a cota da imbecilidade a que estamos sujeitos...
Só eles é que são 'democráticos'!
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