14 de dez. de 2007

O jejum de Dom Cappio e intransigência de Lula

Por Chico Bruno

O governo federal acusa Dom Luiz Flávio Cappio de inimigo da democracia por estar em jejum e oração combatendo o projeto de transposição de águas do rio São Francisco.
O governo federal afirma que só os sonegadores querem o fim da CPMF.
A parte da mídia que discorda de ações do governo é taxada de conservadora e golpista.
E por aí vai. Este é o típico discurso de quem não tem argumentos para o combate no terreno das idéias.
É, por isso, que o governo acusa o gesto de Dom Cappio de uma imposição voluntarista.
O jejum do bispo expõe as contradições de um país, que insiste em posar como uma democracia republicana, real e substantiva, quando na verdade não é.
Se fosse, o bispo não teria a necessidade de jejuar, pois haveria uma ampla discussão sobre a transposição.
Os mandatos eletivos não conferem poder ilimitado aos eleitos, principalmente quando se trata de um projeto megalomaníaco, que vem sendo discutido desde o império, sem que se procurem alternativas.
Além disso, existem dezenas de obras com o mesmo fim espalhadas pelo Nordeste. Um exemplo é o Canal do Sertão, em Alagoas. Uma obra que pára e anda há mais de 20 anos, onde já foram investidos bilhões de reais.
O mais grave são os açudes e barragens existentes no semi-árido do Nordeste, a espera de adução para distribuir a água armazenada. Alguns destes açudes são três, quatro vezes maiores do que a baia da Guanabara.
O projeto de transposição do governo federal é elitista, pois passará longe das terras com pouco índice pluviométrico. Na verdade, o projeto usará recursos públicos para favorecer empreiteiras e atividades econômicas que requerem grandes volumes de água, como a fruticultura irrigada, a maricultura e empreendimentos siderúrgicos.
O governo não poderia iniciar a obra com estudos de impacto ambiental inconclusos e sem consultar o Congresso Nacional como manda a Constituição.
Além disso, existem mais de uma dezena de ações contra a transposição na Justiça aguardando sentença e uma liminar concedida pelo TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, de Brasília suspendendo as obras iniciadas pelo Exército.
O presidente Lula se nega a parar para acertar. Ao contrário, insiste na continuidade das obras. O mais grave é que escondem da opinião pública os EIAs/Rima que mostram que as águas da transposição serão distribuídas 70% para irrigação, 26% para uso industrial e 4% para população difusa.
Dom Cappio defende água para 44 milhões de pessoas e não para 12 milhões. Ele quer contemplar os nove estados do Nordeste e não quatro e os 1.356 municípios, ao invés de apenas 397.
Ao contrário de chamar Dom Cappio de fundamentalista e inimigo da democracia, o ministro Geddel Vieira Lima, que antes de aderir a Lula era contra a transposição, deveria reabrir o diálogo sobre a obra.
O presidente Lula ao invés de insistir nas obras de transposição do Rio São Francisco e de criticar Dom Luiz Cappio pelo jejum, deveria se lembrar que em 1980, quando líder sindical, passou 31 dias preso pelo regime militar e fez uma greve de fome por seis dias, interrompendo-a por pedido de D. Cláudio Hummes, na época bispo de Santo André.
Lula repisa um argumento pífio para não reabrir a questão. Diz que o governo não tem condições de ceder às pressões de Dom Luiz Flávio Cappio, pois não pode paralisar as obras para atender a uma demanda "individual" que abriria um precedente perigoso, haja vista, que corre o risco de não governar mais se ceder.
Isso é uma falácia. A demanda não é “individual”, é coletiva. Basta ver que milhares de pessoas já foram a Sobradinho se solidarizar com o protesto do bispo.
A intransigência de Lula pode lhe custar caro.

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