O romance “A letra escarlate” é uma obra prima. Um lugar comum, chavão, certamente, mas se você quiser saber algo sobre o ser humano não pode deixar de ler este livro escrito por Nathaniel Hawthorne, americano, lançado em 1850. A história que resultou na escrita do livro é interessante. Hawthorne tinha um cargo importante na Alfândega na cidade de Salem, e repentinamente perde o emprego. Chega em casa desesperado e conta o fato para a esposa. Ele tinha feito um ótimo casamento. A mulher, para surpresa dele, fica encantada com a noticia e diz: “agora você pode escrever seu livro”. Imagine isso no Brasil? Mas ela o tinha em alta conta e sabia do gênio literário do marido. E de fato ele escreveu uma obra prima. Lembrei agora da pergunta ansiosa do discípulo a Sócrates sobre o que ele pensava do casamento, se era a favor. Resposta de Sócrates: sou a favor sim. Se você fizer um bom casamento será feliz, senão fizer, será filósofo. Sócrates fez um péssimo casamento, é bom lembrar, o que talvez justifique o fato dele aceitar tomar cicuta, quando poderia ter escapado, porque seus amigos já tinham subornado a maioria dos jurados. Mas do que fala o grande livro de Hawthorne?
O romance mostra com forca indelével o nascimento da civilização americana. O choque terrível entre a força moral puritana dos calvinistas ingleses, que expulsos da Inglaterra, vão povoar o “novo mundo”, e a natureza bruta, selvagem, instintiva, pulsional de outro. O cerne de “A letra escarlate” é a dialética poderosa levantada por Freud, e até hoje insuperável, entre instintos e civilização, ou entre desejo individual e a força da coletividade, carreada no caso pela religião. O livro conta a história de Hester Prynne, uma bela e jovem mulher, casada, que tem um romance “proibido” com um pastor (é bom lembrar que ao contrário da religião católica, os protestantes podem casar), porque imagina que o marido morreu numa viagem que havia feito. A questão é que o marido não morreu e volta e Hester estar grávida e dá a luz a uma menina. O livro é uma investigação minuciosa sobre a alma humana. Minuciosa. E, claro, a civilização sempre vence. A condenação de Hester é exemplar, ao mesmo tempo em que a mentira do pastor também. A raiz da formação americana é trazida à tona na pena elegante de Hawthorne. Mas o que esse romance teria que ver com o nosso país, você pode perguntar? Tudo, eu diria.
A Europa com o fim da Idade Média adere ao protestantismo, o que chega aos EUA colonizado pelos ingleses puritanos. A nossa raiz é católica. A prática dos americanos (protestante) mesmo com toda dureza é autêntica, a nossa não. A nossa é frouxa. Aceita os piores absurdos. Ficamos em dúvida nesse momento quem é de fato liberal: nós ou eles, já que tanto criticamos os americanos liberais. O cristianismo (principalmente) o católico advoga “ofereça a outra face”, mas quem o faz? Cobrar algo, sem praticá-lo, para que serve? As nossas contradições são imensas, profundas, abissais. E continuam. Mas adianta? Termina-se por se desgastar, sendo o chato, falando do que não tem efeito. Continuo dizendo: a dificuldade não é formular a crítica. É mudar. Nesse sentido os puritanos são sinceros, criaram conceitos rígidos, e vivendo conforme tal, para o bem ou para mau. Aqui não. Aqui somos um poço de frouxidão moral. Basta dizer que depois de todos os escândalos (nem vou citar os locais) envolvendo Lula e seu governo, ele é reeleito. Como explicar isso? Onde extrair essa explicação em nossa literatura? A deles sabemos. Mas claro, temos que apelar para a nossa formação de permissividade, de aceitação da incoerência, e o pior, o mais grave: fica tudo por isso mesmo. Duvido algo assim nos EUA, Europa ou Japão. Mas por isso eles são o que são, e nós o que somos. E cabe mesmo a pergunta: seriam eles por essa rigidez moral, menos humanos e menos liberais? Aqui há conivência, o corpo mole, vistas grossas. Porque no fundo não queremos assumir nenhum tipo de responsabilidade para com a civilização.
Mas de que adianta? Adianta? Claro que não. É melhor fazer como todo mundo, e evitar os desgastes. Como mudar o imutável? Claro defesa há para tudo, mas elas apenas acentuam as contradições. Não é à toa também, que muitos que conheço viram as costas, ou terminam aderindo, cedendo ao “sistema” imutável. Medida de sobrevivência, dizem. Ok. Pensem. As nossas raízes nos agarram, estão fincadas. Quem sabe ler de fato percebe as contradições se acumulando. Mas adianta? Se a idéia é pregar no deserto, talvez um dia surja o nosso verdadeiro Cristo. Ou quem sabe os nossos puritanos. Ou, o mais provável: permanecer onde adoramos ficar.
A Europa com o fim da Idade Média adere ao protestantismo, o que chega aos EUA colonizado pelos ingleses puritanos. A nossa raiz é católica. A prática dos americanos (protestante) mesmo com toda dureza é autêntica, a nossa não. A nossa é frouxa. Aceita os piores absurdos. Ficamos em dúvida nesse momento quem é de fato liberal: nós ou eles, já que tanto criticamos os americanos liberais. O cristianismo (principalmente) o católico advoga “ofereça a outra face”, mas quem o faz? Cobrar algo, sem praticá-lo, para que serve? As nossas contradições são imensas, profundas, abissais. E continuam. Mas adianta? Termina-se por se desgastar, sendo o chato, falando do que não tem efeito. Continuo dizendo: a dificuldade não é formular a crítica. É mudar. Nesse sentido os puritanos são sinceros, criaram conceitos rígidos, e vivendo conforme tal, para o bem ou para mau. Aqui não. Aqui somos um poço de frouxidão moral. Basta dizer que depois de todos os escândalos (nem vou citar os locais) envolvendo Lula e seu governo, ele é reeleito. Como explicar isso? Onde extrair essa explicação em nossa literatura? A deles sabemos. Mas claro, temos que apelar para a nossa formação de permissividade, de aceitação da incoerência, e o pior, o mais grave: fica tudo por isso mesmo. Duvido algo assim nos EUA, Europa ou Japão. Mas por isso eles são o que são, e nós o que somos. E cabe mesmo a pergunta: seriam eles por essa rigidez moral, menos humanos e menos liberais? Aqui há conivência, o corpo mole, vistas grossas. Porque no fundo não queremos assumir nenhum tipo de responsabilidade para com a civilização.
Mas de que adianta? Adianta? Claro que não. É melhor fazer como todo mundo, e evitar os desgastes. Como mudar o imutável? Claro defesa há para tudo, mas elas apenas acentuam as contradições. Não é à toa também, que muitos que conheço viram as costas, ou terminam aderindo, cedendo ao “sistema” imutável. Medida de sobrevivência, dizem. Ok. Pensem. As nossas raízes nos agarram, estão fincadas. Quem sabe ler de fato percebe as contradições se acumulando. Mas adianta? Se a idéia é pregar no deserto, talvez um dia surja o nosso verdadeiro Cristo. Ou quem sabe os nossos puritanos. Ou, o mais provável: permanecer onde adoramos ficar.
Um comentário:
Alô, Adriana
Parabéns. A sua pena (no sentido figurado, é claro) continua afiadíssima. O símile com A Letra Escarlate é perfeito.
magu - spaulo
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